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O papel do Estado frente à sindemia





Nos últimos meses, enfrentamos um perigo desconhecido, um vírus que se espalhou pelo mundo, inicialmente identificado como causador de uma forte gripe e depois considerado pelos cientistas um dos vírus mais perigosos para a saúde humana. Ao longo desse período, cientistas se debruçaram para entender sua forma de contágio, disseminação e, principalmente, desenvolver a tão esperada vacina. Isolamento social, utilização de máscara, lockdown entre outras medidas foram estabelecidos por parte dos governos diante da maior ou menor gravidade aferida. Agora chegamos ao ponto de nos preparar para o depois.


Recentemente, os cientistas passaram a classificar a Covid-19 como uma sindemia e não mais como uma pandemia. Sindemia é um termo criado em 1990 pelo antropólogo norte-americano Merril Singer, a partir da combinação das palavras sinergia e pandemia, para explicar que determinada doença pode causar danos muito mais extensos, dependendo das condições de saúde e socioambientais da pessoa infectada. Na ocasião, ele estudava os impactos do consumo de drogas na população e percebeu que seus efeitos, aliados a outras doenças preexistentes ou condições socioambientais precárias, causavam danos muito mais graves. Ou seja, sindemia se caracteriza por provocar danos mais extensos do que a simples combinação de uma ou mais doenças.


No caso da Covid-19, estudos mostram que os pacientes acometidos pelo vírus que apresentavam doenças preexistentes, como diabetes, hipertensão, distúrbios coronários ou obesidade, tiveram danos bem mais agudos em sua saúde e estão entre os que mais chegaram a óbito. Além disso, a condição socioambiental e a renda também são fatores apontados como agravantes para as consequências da doença.


Esse fenômeno deve acender uma luz de alerta aos governantes. Se os cientistas estão empenhados em desenvolver vacinas e impedir a escalada crescente de contágio, cabe aos dirigentes públicos criar condições para que sejam reduzidos os impactos causados pela Covid-19. A prevenção a doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), hoje responsáveis por 72% de mortes no país, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é algo que podemos agora abraçar com mais força.


O Estado de São Paulo já dá seus passos nesse sentido. Por meio do Programa Parcerias Municipais, a Secretaria de Desenvolvimento Regional firmou um acordo de cooperação técnica com a ACT Promoção da Saúde, visando à capacitação de gestores públicos para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. São mil vagas gratuitas de um curso EAD (Ensino à Distância) sobre apoio público à política específica (“advocacy”) de prevenção e controle de DCNTs, com a proposta de possibilitar aos municípios a adoção de políticas públicas eficazes em curto, médio e longo prazo. As aulas terão início no mês de março de 2021, quando os novos governos municipais já estiverem estruturados.


Essa foi a primeira iniciativa junto ao terceiro setor do Programa Parcerias, criado em 2019 com o objetivo de unir esforços entre Estado e municípios paulistas para reduzir as desigualdades regionais em três áreas prioritárias – educação, saúde e segurança. Muitos outros acordos serão firmados para contribuir para a redução das desigualdades nas diversas áreas. O programa está em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 (metas da ONU) e se apresenta completamente alinhado à proposta de impedir que a Covid-19 tenha ambiente favorável à sua disseminação.

Esse é o papel que devemos assumir. É responsabilidade do Estado proporcionar condições para que seus cidadãos tenham acesso à saúde adequada e uma vida digna.